Em cada cabeça
que a ladeira devora
mora um tormento

A vida
chama seus súditos
em avessa escalada

A paisagem
se finge
parada,

nossas vozes
despencam
ao vento

Se redime
do ato
falho,
já atando
o talho

Esconde
sob o garrote
o desejo:
ver o céu
desmembrar
sua estrutura

escorregar
pelo vão
da porta

a b e r t a

e nunca mais
voltar
a si

A última noite

14/05/2012

Eu ontem
sonhei um raio
que partia
a noite
ao meio

De cada lado
da escuridão
a busca
por autonomia

Uma metade
fica cega,
outra parte
vira dia

Bugalho

29/04/2012

Quisera essa chuva
subisse ao céu
enquanto a lenha
dos meus pensamentos
da queimadura exalasse
feixes fosforescentes

Quisera fosse
um tanto
ao contrário

O peito, calado
e a água toda
pantaneando
o cosmo
bem devagar

A cidade em escuridão
Os homens solvendo
o grande drama de cada questão
e uma luz, inteiramente minha
lúcida e lúdica
como fosse meu contorno
vibrante

Como fosse meu fogo
fátuo
e meu preenchimento
cheio de vida

Buscou um espaço que fosse muito
mais seu do que desse mundo de agora
Não aguentava mais dividir-se entre o aperto
da sala sombria das horas e o terraço embriagado
dos solitários – se não há festa, há fresta
Abismo
para voar
Lirismo
para sonhar

E foi caindo que se observou no vento

Nós, cegos

16/04/2012

Nos corpos
não há vielas
que não desmintam
a razão

Tudo
o que tocam
sentem

Arqueando suas costas,
tentando morrer
mais devagar

O Roberval tinha a mania
de criar paralelos.

Roberval já teve duas namoradas
que trocou por uma louca
que largou por ser louca.

Enquanto isso,
foi se enganchando a uma pequena desordeira
de sete vidas ao longo da história.

Nesse ponto ele já amava outra mulher
que lhe rendeu fortes crises de enxaqueca
e sonhos com cadeiras de balanços e crianças
correndo pelos corredores, espaços não projetados
para correria.

O próprio tempo correu tanto que Roberval se afastou
das vidas paralelas que sem cuidados sempre cultivou
e analisou com estranheza seu passado; passou tinta fresca
nas paredes da casa e viveu a apatia, a doçura e a paz
de um homem envelhecido.

Até que um dia a mulher enxaqueca apanhou suas malas e partiu.
Roberval a quis de volta, ela relutou.
(…)
Ela quis Roberval de volta, ele não aceitou.

Roberto tinha arrumado uma garota descolada
e fazia pose de roqueirão ao lado dela.
Era Rob, Beto, Betão, um cara cool que toca na noite.

Roberto esperou a ex mulher na saída do emprego
e ela sequer o reconheceu.
As outras mulheres também não o reconheceram.
Sua mãe não o reconheceu.
Seus amigos não o reconheceram.

Dizem por aí que Roberval passa seus dias em uma cadeira
de balanço, para lá e cá, mas mal saindo do lugar.
Dizem que sua vida se explica por tudo a que se aplica.

E Rob, o paralelo de si, está pouco se fodendo.

Carta branca

01/04/2012

Eu que não sou passarinho

Que crio raízes e floresço
inebriante

Que de troca simbólica com o mundo
frutifico o pensamento

Eu que não sou vento:
não causo grande dano
sequer apago brasa

Que quando alta,
ainda conectada ao chão,
sinto o crescer das ânsias
amarelar-me a estrutura
enquanto envelheço
austera

Fixa à vida.

Mas do subsolo até as asas
há um universo complementar

Todos estes que aí estão
Eles passarão

E eu hoje também passo
e também deixo passar

Lábil

28/03/2012

Gostava de falar do mar
a viúva bailarina
enquanto quebrava o ombrinho lascivo

Rodopiava pelas ruelas
paralelas ao porto

Cada navio
um gosto morto
quebrando sutilmente a solidão

O corpo pouco valia
no breu do cais

Fogo é efêmero
Dança é efêmera
Vida é efêmera

Só existe água,
quando nada importa mais

Autor e ator fundem-se
entre lençóis
e recordações são tinturadas
em infindáveis papéis

Corretamente,
reciclamos a estrutura

Pois a palavra escorre
do topo do mundo
ao rasgo profundo

As mãos escrevem a vida
fazem crescer construções
e tateiam fios em arrepio

Os pés tanto sobem aos palcos
quanto são capazes de liquefazer todo um cafezal.

1)
O homem
é o grande inventor de si

2)
A palavra
é tridimensional

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