Aos que não percebem
30/05/2012
Em cada cabeça
que a ladeira devora
mora um tormento
A vida
chama seus súditos
em avessa escalada
A paisagem
se finge
parada,
nossas vozes
despencam
ao vento
Observando as bananas na mesa
20/05/2012
Se redime
do ato
falho,
já atando
o talho
Esconde
sob o garrote
o desejo:
ver o céu
desmembrar
sua estrutura
escorregar
pelo vão
da porta
a b e r t a
e nunca mais
voltar
a si
A última noite
14/05/2012
Eu ontem
sonhei um raio
que partia
a noite
ao meio
De cada lado
da escuridão
a busca
por autonomia
Uma metade
fica cega,
outra parte
vira dia
Bugalho
29/04/2012
Quisera essa chuva
subisse ao céu
enquanto a lenha
dos meus pensamentos
da queimadura exalasse
feixes fosforescentes
Quisera fosse
um tanto
ao contrário
O peito, calado
e a água toda
pantaneando
o cosmo
bem devagar
A cidade em escuridão
Os homens solvendo
o grande drama de cada questão
e uma luz, inteiramente minha
lúcida e lúdica
como fosse meu contorno
vibrante
Como fosse meu fogo
fátuo
e meu preenchimento
cheio de vida
Recolham as cadeiras
18/04/2012
Buscou um espaço que fosse muito
mais seu do que desse mundo de agora
Não aguentava mais dividir-se entre o aperto
da sala sombria das horas e o terraço embriagado
dos solitários – se não há festa, há fresta
Abismo
para voar
Lirismo
para sonhar
E foi caindo que se observou no vento
Nós, cegos
16/04/2012
Nos corpos
não há vielas
que não desmintam
a razão
Tudo
o que tocam
sentem
Arqueando suas costas,
tentando morrer
mais devagar
Memórias dos outros #1
05/04/2012
O Roberval tinha a mania
de criar paralelos.
Roberval já teve duas namoradas
que trocou por uma louca
que largou por ser louca.
Enquanto isso,
foi se enganchando a uma pequena desordeira
de sete vidas ao longo da história.
Nesse ponto ele já amava outra mulher
que lhe rendeu fortes crises de enxaqueca
e sonhos com cadeiras de balanços e crianças
correndo pelos corredores, espaços não projetados
para correria.
O próprio tempo correu tanto que Roberval se afastou
das vidas paralelas que sem cuidados sempre cultivou
e analisou com estranheza seu passado; passou tinta fresca
nas paredes da casa e viveu a apatia, a doçura e a paz
de um homem envelhecido.
Até que um dia a mulher enxaqueca apanhou suas malas e partiu.
Roberval a quis de volta, ela relutou.
(…)
Ela quis Roberval de volta, ele não aceitou.
Roberto tinha arrumado uma garota descolada
e fazia pose de roqueirão ao lado dela.
Era Rob, Beto, Betão, um cara cool que toca na noite.
Roberto esperou a ex mulher na saída do emprego
e ela sequer o reconheceu.
As outras mulheres também não o reconheceram.
Sua mãe não o reconheceu.
Seus amigos não o reconheceram.
Dizem por aí que Roberval passa seus dias em uma cadeira
de balanço, para lá e cá, mas mal saindo do lugar.
Dizem que sua vida se explica por tudo a que se aplica.
E Rob, o paralelo de si, está pouco se fodendo.
Carta branca
01/04/2012
Eu que não sou passarinho
Que crio raízes e floresço
inebriante
Que de troca simbólica com o mundo
frutifico o pensamento
Eu que não sou vento:
não causo grande dano
sequer apago brasa
Que quando alta,
ainda conectada ao chão,
sinto o crescer das ânsias
amarelar-me a estrutura
enquanto envelheço
austera
Fixa à vida.
Mas do subsolo até as asas
há um universo complementar
Todos estes que aí estão
Eles passarão
E eu hoje também passo
e também deixo passar
Lábil
28/03/2012
Gostava de falar do mar
a viúva bailarina
enquanto quebrava o ombrinho lascivo
Rodopiava pelas ruelas
paralelas ao porto
Cada navio
um gosto morto
quebrando sutilmente a solidão
O corpo pouco valia
no breu do cais
Fogo é efêmero
Dança é efêmera
Vida é efêmera
Só existe água,
quando nada importa mais
O que Sartre não precisou me contar
28/02/2012
Autor e ator fundem-se
entre lençóis
e recordações são tinturadas
em infindáveis papéis
Corretamente,
reciclamos a estrutura
Pois a palavra escorre
do topo do mundo
ao rasgo profundo
As mãos escrevem a vida
fazem crescer construções
e tateiam fios em arrepio
Os pés tanto sobem aos palcos
quanto são capazes de liquefazer todo um cafezal.
1)
O homem
é o grande inventor de si
2)
A palavra
é tridimensional